

Com um mercado extremamente promissor, a produção de tilápia combate a informalidade de alguns criadores para manter o crescimento conquistado nos últimos anos.
Natal (RN), 17 de junho de 2009 – A criação de tilápia está em expansão no Brasil. Diante de um mercado que busca cada vez mais o produto visando especialmente a alta gastronomia, o que melhora a imagem do pescado em relação ao público, o setor procura a qualificação para continuar crescendo. Porém, ainda enfrenta problemas que prejudicam a atividade, impedindo que ela atinja uma escala maior de produção. Diante do grande potencial, acompanhado da falta de preparo dos criadores, o país tende a perder oportunidades de negócio por falta de especialização no setor.
De acordo com o engenheiro agrônomo Fernando Kubitza, Ph.D. em Aquicultura pela Auburn University, dos Estados Unidos, que proferiu hoje a palestra “Tilapicultura no Brasil: Realidade e Desafios”, durante a Fenacam 2009, a falta de planejamento e visão de mercado são apenas dois dos problemas enfrentados pelos produtores. Na maioria das vezes eles são inexperientes e não aproveitam oportunidades de expansão. “A tilápia está tendo um crescimento violento em algumas regiões, como no estado de Minas Gerais. Alguns empreendimentos chegam a produzir duzentas toneladas de ração por mês para abastecer o mercado”, observa.
Diante disso é preciso enfrentar desafios, principalmente em relação ao planejamento do negócio e design da empresa, o que ajuda na redução de custos e proporciona boas práticas de manejo. A questão é que muitos criadores apenas copiam o que outros fazem e repetem os mesmos erros, prejudicando a produção.
O trabalho correto dentro dos viveiros também evita a proliferação de doenças, que são responsáveis por um prejuízo anual de R$ 40 milhões para o setor. “Esse é um valor razoável que no dia a dia não aparece muito. Por exemplo, se diariamente eu tirar R$ 10,00 de um produtor, ele não vai reclamar, mas se eu tirar R$ 150 mil de uma vez, ele vai achar ruim. Então, aquele prejuízo que se acumula durante cem dias acaba pesando no final. É preciso fazer um controle sanitário rigoroso no Brail”, alertou Fernando Kubitza, lembrando que boa parte das doenças entra no plantel nacional por causa da compra de alevinos em outros países sem que haja um cuidado diferenciado com a saúde deles.
Por isso, o engenheiro acredita que o novo Ministério da Aquicultura e Pesca terá papel fundamental nesse controle. “O novo Ministério, para ser forte, deve somar, coordenar e fomentar ações em prol do setor. Nós precisamos de um plano nacional bem estruturado na aquicultura para que o Brasil cresça”, disse. Essa mudança e reorganização do setor se fazem tão necessárias que a maior prova disso é o fato de até faltar tilápia no mercado interno em alguns períodos. “Com isso a gente acaba abrindo espaço para países como a China, que entra com sua produção em nosso país e comercializa seu filé de tilápia no mercado nacional”, lamenta. A saída é acabar com a informalidade no setor e buscar um padrão de qualidade que exija especialização da cadeia produtiva.
Produção européia mostra caminhos da produção de peixes
Em contrapartida à estruturação da tilapicultura no Brasil, países europeus descobriram em outras espécies de pescado o caminho para desenvolver a piscicultura no continente. Assim, o perfil e os desafios da produção comercial de peixes na Europa, nos países que circundam o Mediterrâneo, foi o tema abordado na palestra Produção Comercial de Peixes Marinhos na Europa: Realidade e Tendências, realizada na manhã de hoje na Fenacam, com Mario Hoffmann, biólogo e sócio-gerente da Matrice Production Marine, empresa de pescado sediada na França.
De acordo com ele, a produção européia está focada em duas espécies - dourada e robalo - e o mercado teve uma evolução na quantidade de produção e no aumento de preço a partir da década de 80. O processo também foi acelerado, consideravelmente, nos anos 90 devido a fatores como: a existência de áreas geográficas ideais para produção em tanques de redes, intenso suporte da comunidade européia para projetos conjuntos entre indústria e pesquisa e desenvolvimento na tecnologia de produção de alevinos.
Atualmente os maiores produtores europeus são a Grécia com 44%, Turquia com 28%, Espanha com 13%, Itália com 9% e França com 6%. De 2000 a 2007, houve um crescimento na produção de 100 para 200 mil toneladas, mas também houve um decréscimo nos valores de mercado o que provocou a falência de muitas empresas do setor. “Um dos principais motivos é a falta de participação e de entendimento entre as empresas na discussão do preço mínimo do peixe ou de um planejamento para a diminuição da oferta, pois uma pesquisa comprovou que quando há o aumento de produção, há queda no preço. Mas estamos começando a mudar. Muitos produtores estão se organizando em associações nacionais e com a Federação Européia de Aquacultores. Conseguimos um preço mínimo que está sendo respeitado e foi formulado um plano de aumento gradativo do preço”, explica Hoffmann.
Além da equiparação dos preços no mercado europeu, as indústrias estão buscando avanços tecnológicos para incremento na comercialização e produção de peixes na região do mediterrâneo. A substituição dos tanques em terra pelos de rede (no mar), o aumento da capacidade desses tanques redes de 10 para 150 toneladas e a alimentação dos animais de forma automatizada são alguns dos fatores utilizados pela indústria de piscicultura européia. “Um grande exemplo da passagem do sistema de produção tradicional para o industrial é a utilização de tanques redes no mar. Esse método comprova que é possível o cultivo mantendo a interação com o ambiente natural, além de ter uma legislação menos rígida em relação aos tanques em terra”, afirma o biólogo.
A palestra foi finalizada com considerações sobre o mercado piscicultor europeu e seus desafios. “A maior parte da nossa produção é feita por pequenas e médias empresas, num mercado limitado e que comercializam o peixe refrigerado e inteiro sem nenhum valor agregado. Temos uma produção fragmentada em 15 países com diferentes legislações, apesar de todos pertencerem a Comunidade Econômica Européia. Nossos principais desafios são a promoção do consumo através do marketing local e em conjunto com outros países produtores, a identificação de novos mercados e incremento do consumo local, a harmonização das legislações entre os países, diferenciação do produto com certificados de qualidade, de produtos orgânicos e selos de origem e o aumento da oferta de produtos com valor agregado”, finaliza Hoffmann.
